Category: Relatos

Somando Forças. Ocupa Rio e Ocupa Niterói

No último domingo, dia 18 de dezembro, alguns membros do Movimento Ocupa Rio foram à Praia de Icaraí para saudar o pessoal do Ocupa Niterói. O movimento migrou para as areias da praia, em frente à Praça Getúlio Vargas, após as autoridades proibirem a manifestação pacífica na praça. Eles lembraram muito bem que, nas areias da praia, somente a Marinha pode intervir. Como todos os grupos de ocupação espalhados pelo mundo, em Niterói encontram-se indivíduos com diferentes perfis que atuam em diversas áreas profissionais, além de alunos uuniversitários em formação. Oficinas e debates são organizados diariamente e conseguem uma boa quantidade de participantes. Cada vez mais pessoas têm chegado para se unir ao grupo. Os moradores locais o acolheram e interagem positivamente com o movimento. Integrantes do Ocupario pretendem se unir ao Ocupa Niterói para a realização das ocifinas iniciadas na Cinelândia, que devem ser itinerantes e acompanhar os próximos eventos do Ocupario em Movimento. A intenção é levá-las junto com os debates para todos os espaços abertos possíveis.

“Seja a mudança que você deseja ver no mundo.” (Mahatma Gandhi)

Por Carla Gomes

Relato do Panelaço 09.12

Foi lindo o protesto hoje. Da pequena concentração, com meia dúzia de gatos pingados e seus cartazes, podia-se dizer que não daria em muita coisa. Mas aqueles gatos não eram gatos comuns, desses que não saem na chuva. Eram felinos famintos com garras à mostra, prontos para fazer do miado um grito sem nome. Nunca é mais do mesmo. Gente que não desiste de compartilhar algo de si, mantendo o fluxo da troca de afetos na contramão da utilização publicitária da praça pública. Em tempos de rat race como disse Bob Marley, tempos de “farinha pouca meu pirão primeiro”, havia pirão e farinha e pão com mortadela para todos. “Juliana Paes, você come pão com mortadela?”, brincou um manifestante, enquanto um grupo ao lado provocava as modelos que pousavam para as fotos da Peugeot com seus corpos de plástico, tomando vinho em taças sujas de petróleo. Era gente que olhava de cima buscando entender, era gente que só passava mas entrou e gritou junto. Era a voz e o barulho, a performance livre e o bater de latas. Por um dedo de prosa. Fizemos pilhéria dos outros e de nós mesmos. Caiu-se no chão, dançou-se como bem se queria, houve até bunda de fora do coletivo. Se não me convidaram pra essa festa pobre, a gente faz como o Jorge, o Bandido da Luz Vermelha: “a gente avacalha, avacalha e se esculhamba”. O importante é alguém fazer alguma merda.

Zé Siqueira

CineOcupa na Cinelândia

AVISO IMPORTANTE: NÃO TERÁ PROJEÇÃO COM CHUVA

 

Hoje à noite a partir das 19.30,  vamos realizar outra sessão do CineOcupa. Tragam suas cadeiras de praia!

Segunda feira passada foi projetado “Utopia e Barbarie”  depois de uma reunião sobre o ato de disocupação da administração pública

Seguem algumas imagens deste dia por Rodrigo Torres (CC)

 

 

 

A improvável visita dos Ocupantes da Cinelândia ao Centro Cultural Justiça Federal

 

Boa parte do comportamento das pessoas pode ser explicado pela forma como encaram a Dinâmica da Natureza, chamada por alguns de Destino. Alguns encaram a Natureza como algo determinado, fadado a trilhar rumos pré-determinados; estes entoam a conhecida ladainha: “As coisas são como são. Não há nada que possamos fazer para mudar”, e acabam caindo no fatalismo cínico, nas palavras do pedagogo Paulo Freire. Outros acreditam que a vida o tempo todo se constrói e reconstrói – como o tapete da Penélope dos gregos, feito e refeito todos os dias até o retorno de Ulisses-, e que nós participamos ativamente desta construção. Eu sempre achei a segunda opção mais atraente. Entretanto, aqueles que vivem essa segunda cosmologia têm que lidar com duas características que dividem opiniões – assombro e maravilhamento – entre as pessoas: a probabilidade e a contingência. Acredito que nossa visita ao Centro Cultural Justiça federal (CCJF) é uma boa parábola para explicar estes conceitos.

Desde o dia 15 de Outubro, homens e mulheres de todas as idades e classes sociais ocupam a Praça da Cinelândia, um tradicional palco de lutas políticas da cidade do Rio de Janeiro.  Para isso, nos organizamos em grupos de trabalho (GTs) e assembléias, acreditando na autogestão como uma forma realmente democrática de representatividade. O GT de Educação, por exemplo, trabalha em escalas micro, promovendo oficinas de alfabetização, leitura e interpretação de texto, cartografia, integração mente-corpo, etc; e macro, pensando em novas práticas de ensino e repensando as políticas públicas de educação, propondo também formas ativas de fazer valer as nossas idéias – protestos, manifestos, mas também trabalhos junto às escolas públicas e particulares. Apesar das falaciosas reportagens de mídias mancomunadas ao nosso governo corrupto e submisso ao interesse privado, nosso objetivo sempre esteve muito claro: repensar o sistema sócio-político-econômico, e lutar para transformar sociedade vigente naquela em que queremos. Acreditamos que, para que esse processo seja realmente democrático, será necessária a participação de todos, independente de etnia, gênero, idade, sexualidade, etc. E a educação promoverá a autonomia necessária para que o povo decida – de forma livre e responsável – os rumos da História.

Para isso, na reunião do dia 13 de novembro, nós do GT de Educação decidimos começar uma série de jornadas pelos museus do Centro do Rio – e levaríamos conosco os educandos de nossas oficinas, a maioria deles moradores de rua, e outros ocupantes interessados. A visita inaugural seria no CCJF por dois principais motivos: sua vizinhança com a Ocupação, e o assunto da exposição em cartaz, intitulada “África-Brasil, ancestralidade e expressões contemporâneas”. Sabíamos que precisávamos começar com um tema próximo da realidade da maioria dos brasileiros, e este tema veio bem a calhar. Pedimos que todos nós fôssemos com nossa melhor roupa a fim de não sermos barrados por alguma restrição de vestimenta. Marcamos às 16 horas do dia 15 de Novembro, dia da Proclamação da nossa República. Pareceu-me um tanto irônico que na Res publica – a coisa do povo – os museus do governo parecessem tão distantes da maioria de nós. Senti-me estranho – assombrado e maravilhado – diante da possibilidade de mudar este quadro, de ir com outros brasileiros, como eu, num lugar que deveria ser nosso, apesar de muitos de nós nunca termos entrado ali. Isso tinha que mudar. Acredito nas infinitas possibilidades que a vida nos oferece, e gosto de arcar com as conseqüências associadas.

No dia 15, muitos de nós chegamos atrasados, a maioria sem os trajes adequados, e parecia que a coisa toda poderia ser um fiasco. Enquanto esperávamos os atrasados, um de nós entrou de bermuda e chinelo no CCJF, acompanhado de um amigo que filmou tudo. Precisávamos garantir que não sofreríamos preconceito: já que um de nós entrou, por que outros haveriam de ser barrados? Quando conseguimos ajuntar cerca de 20 pessoas, nos reunimos na frente do CCJF e explicamos algumas das normas dos museus que deveriam ser observadas: não correr, não falar alto, não tocar nas obras, e por aí vai. Alguns de nós, especialmente os educandos, não estavam se sentindo totalmente à vontade. Por isso, entramos de braços dados no museu. Felizmente, não tivemos nenhum problema, e entramos todos com muita alegria e curiosidade para ver a exposição. Poderia alguém prever há um mês atrás, quando criamos o Ocupa Rio, que cerca de vinte pessoas entrariam no CCJF de braços dados, algumas delas visitando pela primeira vez um museu? Acredito que não.

Logo de cara, fomos recebidos no saguão de entrada com uma escultura, talhada em madeira, do grande José Heitor (até aquele momento desconhecido para mim e para muitos outros), chamada Simpatia Carrancuda. Pelo que me lembro, a escultura toda devia ser do meu tamanho, e mostrava sete grosseiras carrancas. Discutimos ali o que são carrancas e porque essa figura de linguagem é usada na linguagem coloquial. Mas ali eu presenciei uma cena muito marcante: um de nós se reclinou para frente até encostar o nariz na escultura. Outro de nós ia recriminá-lo por encostar na imagem, mas ele mesmo se afastou e afirmou só estar cheirando a madeira. De todos nós ali, só ele foi sensível o suficiente para notar o cheiro emanando da madeira. Será que no dia 15 de Outubro alguém poderia prever que esta pessoa entraria pela primeira vez na sua vida em um museu e se reclinaria diante de uma escultura de José Heitor para sentir seu cheiro?

Passamos ao andar de cima, fazendo antes uma pequena pausa na escada. De lá, pudemos notar que toda a arquitetura do prédio era uma obra de arte, magnificamente caprichada nos seus pormenores. Em posição central, vimos um vitral ilustrando a clássica figura da Justiça Cega, e discutimos a situação da Justiça Brasileira diante da iconografia ali disposta. Sobre a figura da Justiça, a um canto, podia-se ver uma faixa representada no vitral que dizia: 15 de Novembro de 1889, Proclamação da República. Precisos 122 anos se passaram para que chegássemos ali e rumássemos ao andar de cima. Assistimos a um vídeo onde a autora trabalhava a imagem de São Sebastião de variadas maneiras, e discutimos a pluralidade das Artes, a ausência de um gabarito, comparando com a visão tradicional da Ciência.

Subindo ainda mais um andar, mas sem deixar de notar o brasão brasileiro – onde uma espada guarda ramos de guaraná (o governo realmente protege as riquezas naturais?) – encontramos uma das partes mais ricas da exposição: as outras esculturas de José Heitor. Uma delas me chamou realmente a atenção: a chamada “Drama dos Mendigos Negros”. A escultura mostrava um casal de mendigos; quatro entidades carrancudas e assombrosas claramente sobrenaturais; uma delas segurando uma serpente que assolava os mendigos; e uma pequeninha coruja, com um rosto no formato infantil de coração, que pousava sobre a serpente. Não pude deixar de fazer minha interpretação sobre a cena: os mendigos negros representam principalmente os homens e mulheres pobres e privados de instrução; as entidades, representando as grandes corporações e os estados mancomunados a elas; a serpente, representando as manobras de poder com que as “entidades” assolam o povo; e a coruja, a encarnação da sabedoria que, sempre vigilante, combate as manobras de dominação dos oprimidos. Se eu pudesse escolher uma imagem que representasse nossa visita, sem dúvida alguma seria essa.

Na sala ao lado, observamos imagens de quilombos, e um de nós apontou uma criança negra em uma das fotos, dizendo: “esse aqui sou eu”. A identificação foi automática, pura, sem que ninguém lhe dissesse nada. Este pequeno gesto mostra que nosso amigo educando é bastante sensível, ainda que ao longo de sua vida tenha tido pouco acesso às Artes. Imagine o quanto ele deixou de aproveitar esse tempo todo? Nesta sala havia, ainda, uma exposição de charges do Pestana – um humor inteligente e crítico do racismo. Foi nesta sala que ouvi com tristeza uma das educandas dizer, enquanto mexia no mouse de um computador, que não conseguia mexer ali; lembrou-me que todos merecemos a chance de estar incluídos na era digital. Nesta sala, um educando gostou especialmente de uma charge onde se via dois esqueletos debaixo da terra – um deles comentava com o outro que detestava negros enquanto vivo; o outro respondia que ele era negro enquanto vivo. Impactante, não? Na saída desta sala, e antes de descermos, nos deparamos com o sinal do Sankofa. Esse símbolo (uma ave com a cabeça voltada para trás) representa uma expressão que quer dizer, na língua Akan de Gana, “a arte de aprender com o passado” – uma idéia bem parecida com a da nossa disciplina História. Senti como se a exposição quisesse nos dizer algo com aquilo.

Antes de deixamos o CCJF, nos fotografamos na escada principal do CCTF, e voltamos bem satisfeitos para a praça da Cinelândia. Sentados em roda, discutimos o que vimos lá dentro enquanto nos deliciávamos com o lanche – um quibe vegetariano e um bolo de maçã – preparado pela própria Caroline da Luz. Pedimos que desenhássemos as coisas que nos chamaram atenção lá dentro. Depois de relutar, dizendo que não conseguia desenhar (e de receber muitos incentivos em troca) um de nós desenhou aquela charge do Pestana sobre os dois esqueletos debaixo da terra. Nesta hora, um de nós (de pele branca) perguntou ao rapaz (de pele negra) que havia feito o desenho: quem são esses? E ele respondeu, seguido de um sorriso: este sou eu e o outro é você. Pra mim isso mostra que ele conseguiu refletir sobre o que viu. Um grande sucesso para todos nós!

Todos esses eventos juntos, olhados em retrospectiva, dão a impressão de que inexoravelmente levariam essas vinte pessoas àquele agradável lanche de fim de tarde, onde confraternizamos à sombra de uma árvore, intencionalmente plantada ali anos atrás para que, num futuro distante, pudéssemos ter abrigo e conversar. Realmente, conforme esses eventos foram ocorrendo um após o outro, eles limitaram o rumo das possibilidades futuras, e nos levaram até lá. Este efeito – a limitação das possibilidades posteriores por parte de determinados eventos – pode ser entendido como contingência. São nossos pequenos atos, oficinas, reuniões de GTs que, quando analisados na História, farão parecer inexorável o rumo que tomaremos. Como no Sankofa, aprendemos com o passado – aprendemos que as pessoas mudam a si mesmas e ao mundo ao seu redor. É assombroso e, ao mesmo tempo, maravilhoso (me permito a reiteração como recurso enfático), compreender que nossas escolhas geram contingência, participando ativamente da construção do futuro, de um novo presente. Quem poderia prever, antes da construção coletiva do Ocupa Rio, que tudo isso aconteceria? Era tudo incrivelmente improvável, antes que acontecesse.

Um mundo onde o futuro é inexorável não nos convida e batalhar por mudanças; do contrário, nos convida a aceitar as coisas como são. Em contraposição, um mundo dinâmico – uma história a ser contada – nos oferece infinitas possibilidades de mudanças; sob o preço da responsabilidade por estas mudanças. Compreender esta responsabilidade é despertar para a consciência de que somos seres históricos e políticos, sujeitos a mudanças desde que dispostos a mudar. E cabe a nós, em comunhão, lutar para remover nossos obstáculos a esta tomada de consciência. Termino este relato, bastante pessoal, agradecendo a todos que participaram deste momento e desejoso de que continuemos juntos nessa eterna construção.

Luiz Felipe Lima Silveira

Le mouvement de l’et cætera

Comme dans un forum social, mille choses se passent en même temps et c’est comme ça que tout se déploie. – Rodrigo Bertame au Occupons Rio.

Le camping à Rio compléte dix jours. Pour ceux qui y sont jour et nuit, beaucoup plus. L’ocupation n’a pas seulement transformé radicalement l’espace, mais le temps aussi. Il est devenu plus épais et plus riche, débordant d’instants créatifs et inespérés. Si la place de la Cinelândia, au centre de Rio, portait déjà ses chroniques quotidiennes, maintenant elles se multiplient au millier. Chaque jour est un monde entier, mille choses se passent en même temps.

L’histoire du camping est l’histoire de ses rencontres, de ses convergences et divergences. Les risques du départ, les pulsions d’identité et de consensus n’ont plus aucun sens. Au delà d’un collectif autogéré, ce camping se construit comme un trafic routier. Il ne s’agit pas d’une autogestion comme autosuffisance, mais comme autonomie. Il n’y a pas un dedans et un dehors, pas de rituel pour ceux qui arrivent ,d’y prendre partie en s’identifiant auprès des “plus anciens” occupants. Il suffit d’y être ! De faire. Et on y est automatiquement dedans. Les assemblées du départ se sont réduites et le camping s’est débureaucratisé. Elles ne sont plus vues comme chose substantielle ou axes d’un processus, mais juste un moment ; son importance, tout de même, est préservée. Aucune structure ne peut représenter les éléments de créativité, mutation, résistance, de réinvention quotidienne. Traversée de tous ses côtés, la place occupée s’amalgame aux flux de la ville et à ses demandes concrètes.

À chaque jour, Occupons Rio se qualifie, s’intensifie, s’autovalorise. On compte plus de 150 tentes. Il y a des générateurs d’énergie, des réfectoires, de petits ateliers, des laboratoires théoriques, des plateaux, un microphone ouvert. Il y a des groupes de travail (GT) plus ou moins constants (d’alimentation, d’activités, de sécurité, théorie, queer, arts et culture, anthropophagie etc), de non-travail, groupes d’affinité, collectifs auto-constitués et même un GT’aime. Les jeunes d’entre 20 et 30 ans y prédominent, mais tous les âges sont représentées. C’est une dynamique à longue manche, sans liders ou groupes prépondérants. S’il y a des punks, ils ne se limitent pas à l’anarchie facile ; des autogestionnaires ne veulent pas s’isoler ; les marxistes ne portent pas leurs marximètres ; les hackers apprennent à danser. On construit au commun des relations, au déroulement de l’instant, sans préoccupations excessives de consensus. C’est un mouvement de l’ et cætera. Un immense, hétérogène et inqualifiable et cætera. C’est pour cela qu’il est inutile pour l’assemblée d’avoir peur et de se préocuper avec les risques d’oportunistes et malveillants, comme si on avait pour mission de “proteger” les gens et de preserver une pureté du mouvement. Ils en ont pas besoin, personne n’est bête ici. Ce sont comme des chats, conçus pauvres et libres.

A-t-on déjà vu un troupeau de chats?

Cet et cætera n’est pas représenté par la politique institutionnelle, la grande presse, la culture commerciale. Son désir d’exister n’était pas annoncé, ne s’articulait point, ne se fesait pas percevoir ou était apperçu. Dans un processus dynamique, l’et cætera se compose comme classe. Il acquiert non seulement une voix en chœur, mais plusieurs. À la place de ligne éditoriale ou politique, comme les partis et les grands journaux se présentent, on a ici une polyphonie. Ce qui n’est pas n’importe quoi. Il suffit de rappeler comment les appartchiks du parti d’extrême-gauche PSTU et l’agenda anticorruption du magazine Veja ont été spontanément refusés.

Il y a des articulations avec les mouvements contre les déplacements des habitations en vue des grands évènements comme la Coupe du Monde et les jeux Olympiques, le “choc d’ordre” imposé par la mairie, le modèle de développement de Belo Monte, le système pénal séléctif et raciste, l’incrimination des mouvements sociaux, pour la reconnaissance du marché informel, de la culture libre, pour une éducation plus qualifiée et ouverte, pour la liberté de transit (passe livre), pour une démocratie réelle au delà de la représentation de l’État et du marché. Si Occupons Rio est à gauche, ce n’est certainement pas cette gauche qui gouverne le pays, de l’appareillage partisan ou au fil rouge de l’académie. Et on entend souvent dans les débats le mot “capitalisme”. Des laboratoires de lecture sont formés, comme celui sur Multitude (Antonio Negri, Michael Hardt). Tout est trés politisé. On peut arriver pour le loisir d’un camping d’été et se retrouver en train de faire de la politique à fond, et parfois le contraire : on y vient pour faire de la politique et on se retrouve dans un camping d’été. Et et cætera!

Dailleurs, tout est à la dimension politique. Il n’y a pas de séparation entre la pratique et la politique. Quand on délibère sur la sécurité, on évite d’y reproduire une police, il faut repenser les relations avec les sans-abri, avec les commerçants informels, la police municipale, les picpockets matinaux qui “font un gain” dans la place et, peut être, de retrouver des convergences pour les rapprocher. Même la nourriture n’est pas un problème interne puisqu’on n’y cultive rien ; elle vient de la ville, elle dépend de relations.

Occupons Rio n’a pas de date prévue de conclusion. Il s’agit d’une manifestation permanente et mutante. Grâce aux médias sociaux elle peut se dérouler dans la place ou dans la rue, se re-virtualiser à nouveau et ainsi successivement. Réel et virtuel ne s’opposent pas. Si demain les pouvoirs constitués font preuve de couardise en recourant à la violence, le mouvement continuera et s’agrandira. Aprés tout, ces gens sont les mêmes. Ou mieux, ne sont plus les mêmes.

Bruno Cava, da OcupaRio / Trad.: Cristiano Fagundes, da OcupaRio

Quando as buscas individuais se encontram em uma praça

13-11-11. Ontem participei pela primeira vez de uma assembléia do movimento #OcupaRio e me foi possível perceber que mesmo quando diversas causas e ideais afins, de inúmeros indivíduos, se convergem em um determinado local – já que no campo psíquico estão em comunhão a todo instante -, haverá sempre divergência de opiniões. Mas como lidar com estas divergências, sem que o caos (causado voluntaria ou involuntariamente pela indignação, raiva, desequilíbrio emocional, mentira, discórdia de qualquer espécie etc.) venha instalar-se onde deveria predominar a harmonia? Não seria esta a principal busca em comum daqueles que, por livre e espontânea vontade, se dirigiram e continuam se dirigindo à praça? A harmonia?

Entendi que o movimento se propõe a não seguir UMA determinada linha ideológica, apesar de que de uma coisa eu já tenho certeza: o AMOR é uma proposta chave do mesmo. Mas para que haja AMOR, é preponderantemente necessário que exista RESPEITO, e isso é outro consenso. Neste caso, eu, como indivíduo, gostaria de trazer uma linha de pensamento de Gandhi que expressa o seguinte:

“As divergências de opinião não devem significar hostilidade. Se fosse assim, minha mulher e eu deveríamos ser inimigos figadais. Não conheço duas pessoas no mundo que não tenham tido divergências de opinião. Como seguidor da Gita (Bhagavad-Gita), sempre procurei nutrir pelos que discordam de mim o mesmo afeto que nutro pelos que me são mais queridos e vizinhos”.

Gandhi propõe a não-violência como uma aliada essencial à manifestação do amor… Depois de ter participado da assembléia de ontem, fui levado a refletir sobre os seguintes questionamentos: Certo, talvez ser não-violento seja algo positivo, e até mais tangível de se alcançar dentro do comportamento individual frente a outras pessoas também não-violentas, mas, deveríamos ser não-violentos até mesmo diante daqueles que agridem ou que oprimem? E frente a todo um governo opressor, cuja a democracia está só no nome, se tornaria a não-violência ineficaz?

“A não-violência não pode ser definida como um método passivo ou inativo. É um movimento bem mais ativo que outros que exigem o uso das armas. A verdade[1] e a não-violência são, talvez, as forças mais ativas de que o mundo dispõe”.

Nossa! Mas como poderíamos comprovar uma coisa assim? Haveríamos de estudar ocasiões em que este método foi utilizado, provando-se eficiente no combate da opressão de um poder vigente. Haveríamos de estudar sua teoria e sua aplicação prática. E caso aprovássemos tal afirmação como plausível para nós, haveríamos de adotar mudanças comportamentais profundas, como, por exemplo, não apontarmos mais pessoas como “inimigas”, nem em se tratando do político mais sujo e corrupto, ou do assassino mais vil e cruel.

Para que se tenhamos uma guerra, precisamos necessariamente de um inimigo. Para que tenhamos um inimigo, precisamos retirar dele (na nossa mente) toda a sua dignidade. Se tiramos dele a dignidade, não precisamos pensar nele como nosso próprio irmão. Ele é diferente, é o outro, é o inimigo! Assim, fica mais fácil de “combatê-lo”, pois, dependendo da ocasião, até o assassinato passa a ser válido como forma de eliminar o mal que ele propaga. Mas seria mesmo este o melhor caminho? O aparentemente mais fácil? Não seria este o erro que os governos opressores (incluindo os que levam o nome de democráticos) vêm incorrendo todo esse tempo? Escolher o caminho “mais fácil”?

“Não-violência não quer dizer renúncia a toda forma de luta contra o mal. Pelo contrário. A não-violência, pelo menos como eu a concebo, é uma luta ainda mais ativa e real que a própria lei do talião (nota do redator: “Olho por olho, dente por dente”), mas em plano moral”.

Caros leitores, é bom lembrar que este é só um simples relato que expressa uma opinião individual e que, sim, aborda um embate de ordem moral, mas não só isso, já que levo em consideração a impermanência e dualidade de todas as coisas. Porém, para não me alongar neste relato, que já se torna demasiado comprido, gostaria de fechar o pensamento com o seguinte:

A não-violência, quando adotada como política, se transforma em algo que conhecemos por Desobediência Civil (ou Política da Ação Não-violenta, ou Não-violência Ativa) e trata-se de uma ferramenta poderosíssima para quaisquer grupos de pessoas que desejem se libertar de governos opressores, sejam eles ditatoriais ou simplesmente quando estes se utilizam de injustos sistemas sociais e econômicos (nosso presente caso global), pois sim, a violência também é econômica, política e ideológica.

De fato, diversas formas de ação não-violenta, como greves e boicotes econômicos, são usados frequentemente para ganhar salários mais altos e melhores condições de trabalho, mas seu poder vai adiante, muito além.

Há um livro traduzido para o português cujo título é “Poder, Luta e Defesa: Teoria e prática da ação não-violenta”, de alguém que estudou a fundo a Desobediência Civil, Gene Sharp, tendo fundado o Instituto Albert Einstein. Vale a pena ser conferido para um aprofundamento no assunto. O livro pode ser encontrado gratuitamente no seu site, no seguinte link:
http://www.aeinstein.org/organizations70ea.html

E é bom adiantar: Desobediência Civil é diferente de Desobediência Criminal. Tratam-se de duas esferas distintas de Direito e suas infrações.

Gostaria de convidá-los a estudar este pensamento e refletir: Afinal, como se libertar e libertar ao mundo fazendo uso da violência em quaisquer de suas formas de manifestação? Seria a não-violência um pré-requisito para quem estivesse disposto a alcançar qualquer tipo de liberdade?

“Este método pode parecer demorado, muito demorado, mas eu estou convencido de que é o mais rápido.”

É, Mahatma, sua fala já me contemplou.

Fernando Furtado.

[1] Acho importante colocar aqui que quando Gandhi fala sobre a verdade, o faz em um sentido místico… uma de suas frases diz: “O Amor e a verdade estão tão unidos entre si que é praticamente impossível separá-los. São como duas faces da mesma medalha.