Boa parte do comportamento das pessoas pode ser explicado pela forma como encaram a Dinâmica da Natureza, chamada por alguns de Destino. Alguns encaram a Natureza como algo determinado, fadado a trilhar rumos pré-determinados; estes entoam a conhecida ladainha: “As coisas são como são. Não há nada que possamos fazer para mudar”, e acabam caindo no fatalismo cínico, nas palavras do pedagogo Paulo Freire. Outros acreditam que a vida o tempo todo se constrói e reconstrói – como o tapete da Penélope dos gregos, feito e refeito todos os dias até o retorno de Ulisses-, e que nós participamos ativamente desta construção. Eu sempre achei a segunda opção mais atraente. Entretanto, aqueles que vivem essa segunda cosmologia têm que lidar com duas características que dividem opiniões – assombro e maravilhamento – entre as pessoas: a probabilidade e a contingência. Acredito que nossa visita ao Centro Cultural Justiça federal (CCJF) é uma boa parábola para explicar estes conceitos.
Desde o dia 15 de Outubro, homens e mulheres de todas as idades e classes sociais ocupam a Praça da Cinelândia, um tradicional palco de lutas políticas da cidade do Rio de Janeiro. Para isso, nos organizamos em grupos de trabalho (GTs) e assembléias, acreditando na autogestão como uma forma realmente democrática de representatividade. O GT de Educação, por exemplo, trabalha em escalas micro, promovendo oficinas de alfabetização, leitura e interpretação de texto, cartografia, integração mente-corpo, etc; e macro, pensando em novas práticas de ensino e repensando as políticas públicas de educação, propondo também formas ativas de fazer valer as nossas idéias – protestos, manifestos, mas também trabalhos junto às escolas públicas e particulares. Apesar das falaciosas reportagens de mídias mancomunadas ao nosso governo corrupto e submisso ao interesse privado, nosso objetivo sempre esteve muito claro: repensar o sistema sócio-político-econômico, e lutar para transformar sociedade vigente naquela em que queremos. Acreditamos que, para que esse processo seja realmente democrático, será necessária a participação de todos, independente de etnia, gênero, idade, sexualidade, etc. E a educação promoverá a autonomia necessária para que o povo decida – de forma livre e responsável – os rumos da História.
Para isso, na reunião do dia 13 de novembro, nós do GT de Educação decidimos começar uma série de jornadas pelos museus do Centro do Rio – e levaríamos conosco os educandos de nossas oficinas, a maioria deles moradores de rua, e outros ocupantes interessados. A visita inaugural seria no CCJF por dois principais motivos: sua vizinhança com a Ocupação, e o assunto da exposição em cartaz, intitulada “África-Brasil, ancestralidade e expressões contemporâneas”. Sabíamos que precisávamos começar com um tema próximo da realidade da maioria dos brasileiros, e este tema veio bem a calhar. Pedimos que todos nós fôssemos com nossa melhor roupa a fim de não sermos barrados por alguma restrição de vestimenta. Marcamos às 16 horas do dia 15 de Novembro, dia da Proclamação da nossa República. Pareceu-me um tanto irônico que na Res publica – a coisa do povo – os museus do governo parecessem tão distantes da maioria de nós. Senti-me estranho – assombrado e maravilhado – diante da possibilidade de mudar este quadro, de ir com outros brasileiros, como eu, num lugar que deveria ser nosso, apesar de muitos de nós nunca termos entrado ali. Isso tinha que mudar. Acredito nas infinitas possibilidades que a vida nos oferece, e gosto de arcar com as conseqüências associadas.
No dia 15, muitos de nós chegamos atrasados, a maioria sem os trajes adequados, e parecia que a coisa toda poderia ser um fiasco. Enquanto esperávamos os atrasados, um de nós entrou de bermuda e chinelo no CCJF, acompanhado de um amigo que filmou tudo. Precisávamos garantir que não sofreríamos preconceito: já que um de nós entrou, por que outros haveriam de ser barrados? Quando conseguimos ajuntar cerca de 20 pessoas, nos reunimos na frente do CCJF e explicamos algumas das normas dos museus que deveriam ser observadas: não correr, não falar alto, não tocar nas obras, e por aí vai. Alguns de nós, especialmente os educandos, não estavam se sentindo totalmente à vontade. Por isso, entramos de braços dados no museu. Felizmente, não tivemos nenhum problema, e entramos todos com muita alegria e curiosidade para ver a exposição. Poderia alguém prever há um mês atrás, quando criamos o Ocupa Rio, que cerca de vinte pessoas entrariam no CCJF de braços dados, algumas delas visitando pela primeira vez um museu? Acredito que não.
Logo de cara, fomos recebidos no saguão de entrada com uma escultura, talhada em madeira, do grande José Heitor (até aquele momento desconhecido para mim e para muitos outros), chamada Simpatia Carrancuda. Pelo que me lembro, a escultura toda devia ser do meu tamanho, e mostrava sete grosseiras carrancas. Discutimos ali o que são carrancas e porque essa figura de linguagem é usada na linguagem coloquial. Mas ali eu presenciei uma cena muito marcante: um de nós se reclinou para frente até encostar o nariz na escultura. Outro de nós ia recriminá-lo por encostar na imagem, mas ele mesmo se afastou e afirmou só estar cheirando a madeira. De todos nós ali, só ele foi sensível o suficiente para notar o cheiro emanando da madeira. Será que no dia 15 de Outubro alguém poderia prever que esta pessoa entraria pela primeira vez na sua vida em um museu e se reclinaria diante de uma escultura de José Heitor para sentir seu cheiro?
Passamos ao andar de cima, fazendo antes uma pequena pausa na escada. De lá, pudemos notar que toda a arquitetura do prédio era uma obra de arte, magnificamente caprichada nos seus pormenores. Em posição central, vimos um vitral ilustrando a clássica figura da Justiça Cega, e discutimos a situação da Justiça Brasileira diante da iconografia ali disposta. Sobre a figura da Justiça, a um canto, podia-se ver uma faixa representada no vitral que dizia: 15 de Novembro de 1889, Proclamação da República. Precisos 122 anos se passaram para que chegássemos ali e rumássemos ao andar de cima. Assistimos a um vídeo onde a autora trabalhava a imagem de São Sebastião de variadas maneiras, e discutimos a pluralidade das Artes, a ausência de um gabarito, comparando com a visão tradicional da Ciência.
Subindo ainda mais um andar, mas sem deixar de notar o brasão brasileiro – onde uma espada guarda ramos de guaraná (o governo realmente protege as riquezas naturais?) – encontramos uma das partes mais ricas da exposição: as outras esculturas de José Heitor. Uma delas me chamou realmente a atenção: a chamada “Drama dos Mendigos Negros”. A escultura mostrava um casal de mendigos; quatro entidades carrancudas e assombrosas claramente sobrenaturais; uma delas segurando uma serpente que assolava os mendigos; e uma pequeninha coruja, com um rosto no formato infantil de coração, que pousava sobre a serpente. Não pude deixar de fazer minha interpretação sobre a cena: os mendigos negros representam principalmente os homens e mulheres pobres e privados de instrução; as entidades, representando as grandes corporações e os estados mancomunados a elas; a serpente, representando as manobras de poder com que as “entidades” assolam o povo; e a coruja, a encarnação da sabedoria que, sempre vigilante, combate as manobras de dominação dos oprimidos. Se eu pudesse escolher uma imagem que representasse nossa visita, sem dúvida alguma seria essa.

Na sala ao lado, observamos imagens de quilombos, e um de nós apontou uma criança negra em uma das fotos, dizendo: “esse aqui sou eu”. A identificação foi automática, pura, sem que ninguém lhe dissesse nada. Este pequeno gesto mostra que nosso amigo educando é bastante sensível, ainda que ao longo de sua vida tenha tido pouco acesso às Artes. Imagine o quanto ele deixou de aproveitar esse tempo todo? Nesta sala havia, ainda, uma exposição de charges do Pestana – um humor inteligente e crítico do racismo. Foi nesta sala que ouvi com tristeza uma das educandas dizer, enquanto mexia no mouse de um computador, que não conseguia mexer ali; lembrou-me que todos merecemos a chance de estar incluídos na era digital. Nesta sala, um educando gostou especialmente de uma charge onde se via dois esqueletos debaixo da terra – um deles comentava com o outro que detestava negros enquanto vivo; o outro respondia que ele era negro enquanto vivo. Impactante, não? Na saída desta sala, e antes de descermos, nos deparamos com o sinal do Sankofa. Esse símbolo (uma ave com a cabeça voltada para trás) representa uma expressão que quer dizer, na língua Akan de Gana, “a arte de aprender com o passado” – uma idéia bem parecida com a da nossa disciplina História. Senti como se a exposição quisesse nos dizer algo com aquilo.
Antes de deixamos o CCJF, nos fotografamos na escada principal do CCTF, e voltamos bem satisfeitos para a praça da Cinelândia. Sentados em roda, discutimos o que vimos lá dentro enquanto nos deliciávamos com o lanche – um quibe vegetariano e um bolo de maçã – preparado pela própria Caroline da Luz. Pedimos que desenhássemos as coisas que nos chamaram atenção lá dentro. Depois de relutar, dizendo que não conseguia desenhar (e de receber muitos incentivos em troca) um de nós desenhou aquela charge do Pestana sobre os dois esqueletos debaixo da terra. Nesta hora, um de nós (de pele branca) perguntou ao rapaz (de pele negra) que havia feito o desenho: quem são esses? E ele respondeu, seguido de um sorriso: este sou eu e o outro é você. Pra mim isso mostra que ele conseguiu refletir sobre o que viu. Um grande sucesso para todos nós!
Todos esses eventos juntos, olhados em retrospectiva, dão a impressão de que inexoravelmente levariam essas vinte pessoas àquele agradável lanche de fim de tarde, onde confraternizamos à sombra de uma árvore, intencionalmente plantada ali anos atrás para que, num futuro distante, pudéssemos ter abrigo e conversar. Realmente, conforme esses eventos foram ocorrendo um após o outro, eles limitaram o rumo das possibilidades futuras, e nos levaram até lá. Este efeito – a limitação das possibilidades posteriores por parte de determinados eventos – pode ser entendido como contingência. São nossos pequenos atos, oficinas, reuniões de GTs que, quando analisados na História, farão parecer inexorável o rumo que tomaremos. Como no Sankofa, aprendemos com o passado – aprendemos que as pessoas mudam a si mesmas e ao mundo ao seu redor. É assombroso e, ao mesmo tempo, maravilhoso (me permito a reiteração como recurso enfático), compreender que nossas escolhas geram contingência, participando ativamente da construção do futuro, de um novo presente. Quem poderia prever, antes da construção coletiva do Ocupa Rio, que tudo isso aconteceria? Era tudo incrivelmente improvável, antes que acontecesse.
Um mundo onde o futuro é inexorável não nos convida e batalhar por mudanças; do contrário, nos convida a aceitar as coisas como são. Em contraposição, um mundo dinâmico – uma história a ser contada – nos oferece infinitas possibilidades de mudanças; sob o preço da responsabilidade por estas mudanças. Compreender esta responsabilidade é despertar para a consciência de que somos seres históricos e políticos, sujeitos a mudanças desde que dispostos a mudar. E cabe a nós, em comunhão, lutar para remover nossos obstáculos a esta tomada de consciência. Termino este relato, bastante pessoal, agradecendo a todos que participaram deste momento e desejoso de que continuemos juntos nessa eterna construção.
Luiz Felipe Lima Silveira